" PERECEMOS QUANDO NÃO CONHECEMOS E NEM ENTENDEMOS AS ESCRITURAS SAGRADAS" Parte 23
ENRIQUECENDO-SE COM A BÍBLIA Parte 23
AS ESCRITURAS E AS PROMESSAS
As promessas divinas tornam conhecido o beneplácito da vontade de Deus relativamente a Seu povo, de que queria derramar sobre eles as riquezas de Sua graça. Essas promessas são os testemunhos externos do seu coração, o qual, desde toda a eternidade os ama e determinou previamente todas as coisas em favor deles e acerca deles.
Na pessoa e na obra realizada por Seu Filho, Deus estabeleceu uma provisão toda suficiente para a completa salvação deles, tanto quanto ao tempo como quanto à eternidade. Com a finalidade de que Seus remidos tivessem um conhecimento autêntico, claro e espiritual, dessa provisão, pareceu bem ao Senhor apresentá-la dentro das grandes e preciosíssimas promessas que se encontram dispersas por todas as Escrituras Sagradas, como outras tantas estrelas, no glorioso firmamento da graça divina.
E, através delas, podem eles ficar certos da vontade de Deus, em Cristo Jesus, a respeito deles, abrigando-se em Cristo qual seu santuário, para que, por esse intermédio, gozem de real comunhão com Deus, em Sua graça e misericórdia, a todo o tempo, sem importar quais sejam o seu caso e as suas circunstâncias.
As promessas divinas são outras tantas declarações de que Deus nos propiciará algum bem ou removerá algum mal. Nesse sentido, elas tornam conhecido e manifestam o amor de Deus a Seu povo, da maneira mais abençoada possível.
Há três passos vinculados ao amor de Deus:
Primeiro, há o Seu propósito íntimo de exercê-lo; por fim, há a real execução desse propósito; mas, entre uma e outra coisa há o desvendamento gracioso desse propósito aos Seus beneficiários.
Enquanto o amor conservar-se oculto, não poderemos ser consolados pelo mesmo. Ora, Deus, que é "amor", não somente ama aos que Lhe pertencem, e não somente mostrará plenamente o Seu amor a eles, no tempo devido, mas também, nesse ínterim, conserva-os informados acerca dos Seus benévolos desígnios, a fim de que possam descansar docemente em Seu amor, dependendo confortavelmente de Suas firmes promessas. Por esse motivo é que somos capacitados a dizer: "Que preciosos para mim, SENHOR, são os teus pensamentos! E como é grande a soma deles!" (Salmo 139:17).
Na passagem de II Pedro 1:4, as promessas divinas são referidas como "...preciosas e mui grandes..." Conforme Spurgeon salientou, "...a grandiosidade e a preciosidade dificilmente andam juntas; mas, no presente caso, acham-se unidas de forma admirável". Quando o Senhor acha por bem abrir a Sua boca, revelando Seu coração, fá-lo de maneira digna de Si mesmo, com palavras de poder e riqueza superlativos. Citando novamente aquele amado pastor londrino: "Procedem de um grande Deus, dirigem-se a grandes pecadores, operam em nosso favor grandes resultados, e abordam grandes questões". E apesar de que o intelecto natural é capaz de perceber muito dessa grandeza, somente o coração renovado pode sentir o gosto de suas inefáveis promessas, dizendo, juntamente com Davi: "Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! mais do que o mel à minha boca" (Salmo 119:103).
1. Tiramos real proveito da Palavra quando percebemos a quem pertencem as promessas.
Essas promessas foram postas à disposição exclusivamente daqueles que estão em Cristo. "Porque quantas são as promessas de Deus tantas têm nele (em Cristo Jesus) o sim; porquanto também por ele é o amém para glória de Deus, por nosso intermédio" (II Coríntios 1:20). Não pode haver qualquer relacionamento entre o Deus três vezes santo e as criaturas pecaminosas, a não ser através de um Mediador que tenha satisfeito a Deus em nosso favor. Por essa mesma razão, esse Mediador deve receber, da parte de Deus, todas as bênçãos para Seu povo, recebendo-as este das mãos desse Mediador. Um pecador, se despreza e rejeita a Cristo, poderia implorar misericórdia de uma árvore, tanto quanto a implora de Deus – e nada receberia.
Tanto as promessas como as bênçãos prometidas são entregues ao Senhor Jesus e são transmitidas aos santos por intermédio dEle. "E esta é a (principal e maior) promessa que ele mesmo nos fez, a vida eterna" (I João 2:25). E conforme somos informados, nessa mesma epístola: "esta vida está no seu Filho" (I João 5:11).
Sendo as coisas assim, qual é o benefício que podem ter aqueles que não estão em Cristo, com base nessas promessas? Nenhum benefício. O indivíduo fora de Cristo também não desfruta do favor divino; de fato, está debaixo de Sua justa indignação. Sua porção são as ameaças divinas, e não as promessas de Deus. Solene, soleníssima consideração é aquela que diz que aqueles que estão "sem Cristo" são "...separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo" (Efésios 2:12). Somente os filhos de Deus são igualmente "filhos da promessa" (Rom. 9:8). Certifique-se, meu prezado leitor, de que você é um deles também.
Quão terrível, pois, é a cegueira, e quão profundo é o pecado daqueles pregadores que aplicam indiscriminadamente as promessas divinas a salvos e perdidos igualmente! Esses não somente tomam o "pão dos filhos" e os lançam aos "cães", mas também adulteram "...a palavra de Deus..." (II Coríntios 4:2), além de enganarem a almas mortais.
E aqueles que lhes dão ouvidos são pouco menos culpados, porquanto Deus reputa a todos responsáveis por examinarem as Escrituras por si mesmos, submetendo a teste tudo quanto lêem ou escutam, através desse padrão insofismável.
Se porventura alguém é por demais preguiçoso para fazer tal exame, preferindo seguir cegamente os seus guias cegos, então que o seu sangue recaia sobre suas próprias cabeças. A verdade tem de ser "comprada" (Provérbios 23:23), e aqueles que não estão dispostos a pagar o preço pela sua possessão, devem fatalmente ficar sem ela.
2. Tiramos proveito da Palavra quando nos esforçamos por tornar nossas as promessas de Deus.
Para tanto devemos, antes de tudo, estar dispostos ao trabalho de nos familiarizarmos verdadeiramente com essas promessas. É surpreendente o grande número de promessas existentes nas Escrituras, acerca das quais os santos nada sabem, sobretudo quando levamos em conta que essas promessas são o tesouro peculiar dos remidos, já que a substância da herança da fé depende delas. É verdade que os crentes já são os beneficiários de bênçãos admiráveis; no entanto o capital de suas riquezas, a parte principal de suas propriedades encontra-se ainda em estado latente. Já receberam o "penhor" das promessas; mas a porção melhor daquilo que Cristo adquiriu para eles, jaz ainda nas promessas divinas.
Quão diligentes, portanto, deveriam mostrar-se os crentes, no estudo de seu testamento, familiarizando-se com aquelas coisas boas que o Espírito nos "...revelou..." (I Coríntios 2:10), pois assim procurariam fazer o inventário de seus tesouros espirituais!
Não somente convém que eu pesquise as páginas da Bíblia para descobrir o que já me foi entregue, devido ao pacto eterno; mas também preciso meditar sobre as promessas, revolvendo-as sempre na minha mente e clamando ao Senhor para que me seja conferido entendimento espiritual delas. Uma abelha não extrai mel da flor, enquanto fica somente a contemplá-la. Por igual modo, o crente não deriva qualquer consolo real e nem qualquer força espiritual das promessas divinas, enquanto a sua fé não se apossa delas, e enquanto elas não penetram em seu coração.
Deus não deixou qualquer promessa de que os desinteressados serão espiritualmente alimentados, mas declarou: "...a alma dos diligentes se farta" (Provérbios 13:4). Por essa mesma razão é que Cristo ensinou: "Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna" (João 6:27).
Somente quando as promessas divinas são entesouradas em nossas mentes é que o Espírito as traz à nossa memória, naquelas ocasiões de desânimo quando delas mais necessitarmos.
3. Tiramos real proveito da Palavra quando reconhecemos o bendito escopo das promessas de Deus.
"Há certa forma de afetação que impede alguns crentes de inquirirem pelas realidades religiosas, como se a sua esfera estivesse entre as trivialidades da vida diária. Para eles, essas promessas parecem transcendentais, sonhadoras; mais uma criação da ficção pia do que uma realidade palpável. Crêem em Deus de certo modo, como também assim acreditam nas coisas espirituais e na vida vindoura; mas andam totalmente esquecidos de que a verdadeira piedade tem a promessa da vida que agora é, e daquela que haverá no futuro. Para esses, a oração acerca das pequenas questões diárias de que se compõe a vida, seria quase uma profanação. Talvez ficassem boquiabertos se eu me aventurasse a sugerir que isso deveria levá-los a pôr em dúvida a realidade de sua fé.
Se esta não pode ajudá-los nas pequenas dificuldades da vida, porventura poderá sustentá-los nas tribulações maiores da morte?
"A piedade para tudo é proveitosa, porque tem a promessa da vida que agora é e da que há de ser" (I Timóteo 4:8). Prezado leitor, você realmente crê que as promessas de Deus envolvem cada aspecto e particularidade de sua vida diária? Ou os "dispensacionalistas" conseguiram iludi-lo, levando-o a supor que o Antigo Testamento pertence exclusivamente aos judeus carnais, e que as "nossas promessas" dizem respeito a bênçãos espirituais, mas não materiais?
Quantos e quantos crentes têm derivado consolo das palavras que dizem: "De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei" (Heb. 13:5). Pois bem, essa é uma citação extraída do trecho de Josué 1:5! Por semelhante modo, a passagem de II Coríntios 7:1 fala em termos de "...tais promessas..." Mas uma delas, citada em II Coríntios 6:18, foi tirada do livro de Levítico!
Mas alguém poderia indagar: "Onde devo traçar a linha divisória? Quais das promessas do Antigo Testamento realmente me pertencem?" Respondemos com a declaração do trecho de Salmos 84:11: "O Senhor dá graça e glória; nenhum bem sonega aos que andam retamente". Se você realmente está andando em "retidão", então tem o direito de apropriar-se dessa bendita promessa, dependendo do Senhor, o qual lhe conferirá qualquer "coisa boa" de que você realmente precisar. "E o meu Deus, segundo a Sua riqueza em glória, há de suprir em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades" (Filipenses 4:19). Por conseguinte, se em qualquer segmento da Bíblia há alguma promessa que se encaixa à situação e às circunstâncias presentes do prezado leitor, que se aposse dela pela fé, segundo a sua "necessidade". E que o prezado leitor resista firmemente a qualquer tentativa de Satanás de furtar-lhe qualquer porção da Palavra do Pai.

