" SE VIVERMOS E PREGARMOS O EVANGELHO COM A MESMA SIMPLICIDADE COM A QUAL ELE FOI VIVIDO E APRESENTADO POR JESUS AOS HOMENS, ELE CONTINUARÁ SENDO TRANSFORMADOR E EFICÁZ EM SEU EFEITO PRINCIPAL " - Parte 30

27/11/2013 13:09

 

C. S. Lewis

CRISTIANISMO PURO E SIMPLES

                                                                                         Parte 30

AVALIAR O CUSTO

Ao que parece, muita gente se sentiu incomodada com o que eu disse no capítulo anterior a respeito das pa­lavras de Nosso Senhor: "Sede perfeitos." Certas pes­soas aparentemente pensam que isso significa: "Se vocês não forem perfeitos, não os ajudarei"; e, se foi isso que ele quis dizer, não temos esperança alguma, pois não conseguimos ser perfeitos. Mas não acho que foi isso que ele quis dizer. Acho que ele disse: "A única ajuda que lhes darei é a ajuda de que vocês precisam para ser per­feitos. Pode até ser que vocês queiram menos que isso; mas eu não lhes darei menos."

Deixem-me explicar. Quando era criança, eu tinha muita dor de dentes e sabia que, se me queixasse à minha mãe, ela me daria algo que faria passar a dor naquela noite e me deixaria dormir. Porém, eu não me queixa­va à minha mãe — ou só o fazia quando a dor se tornava insuportável. E o motivo pelo qual não me queixava é o seguinte: não tinha dúvidas de que ela me daria uma aspirina, mas sabia que não pararia por aí. Sabia que, na manhã seguinte, me levaria ao dentista. Eu não po­dia obter dela o que queria sem obter também outra coisa, que não queria. Queria o alívio imediato da dor; mas, para ter isso, teria de submeter meus dentes ao tratamento completo. E conhecia os dentistas: sabia que eles começariam a mexer com outros dentes que ainda não escavam doendo. Eram do tipo que mexiam em casa de marimbondos e que, quando se lhes dava a mão, que­riam pegar também o braço.

Ora, se posso me exprimir deste modo, Nosso Se­nhor é como os dentistas. Se você lhe der a mão, ele vai querer o braço. Dezenas de pessoas o procuram para se curar de um pecado específico que as envergonha (como a masturbação ou a covardia física) ou que perturba de modo evidente sua vida cotidiana (como o mau humor ou o alcoolismo). Bem, ele cura esse problema; mas não pára por aí. Mesmo que você lhe peça somente a cura da­quele mal específico, ele lhe dará o tratamento completo. E por isso que ele nos aconselhou a "avaliar o custo" antes de nos tornarmos cristãos. "Não se engane", diz ele. "Se você me deixar trabalhar, vou torná-lo perfei­to. No momento em que você se entregar em minhas mãos, é para isso que se terá entregue - nada menos que isso, nada diferente disso. Você é dotado de vontade li­vre e, se quiser, pode me afastar de si. Mas, se não me afastar, saiba que não vou parar enquanto não terminar esse serviço. Por mais que você sofra nessa vida terrena, por mais que passe por purificações inconcebíveis de­pois da morte, por mais que isso me custe, não descan­sarei nem o deixarei descansar enquanto você não for literalmente perfeito - enquanto meu Pai não puder di­zer sem reservas que se agrada de você como se agradou de mim. E isso que posso fazer e é isso que vou fazer. Mas não farei nada menos que isso."

Não obstante — e este é o outro lado da questão, tão importante quanto o primeiro -, o mesmo Auxiliador que não aceita ao final nenhuma outra coisa que não seja a perfeição absoluta também se compraz com o mais ínfimo e titubeante esforço que você empreende para cumprir o menor dos seus deveres. Como obser­vou um grande escritor cristão (George MacDonald), não há pai que não se agrade com os primeiros passos de seu bebê; mas nenhum pai ficaria satisfeito se não visse o filho já crescido caminhar com um passo firme, livre e másculo. Do mesmo modo, segundo ele, "Deus se agrada facilmente, mas não se satisfaz com facilidade".

A conseqüência prática é a seguinte: por um lado, mesmo que Deus exija a perfeição, você não precisa em absoluto se desanimar com suas tentativas atuais de ser bom, ou mesmo com seus atuais fracassos. Toda vez que você fracassar, ele o colocará novamente em pé. E ele tem perfeita consciência de que seus próprios esforços não o aproximarão em nada da perfeição. Por outro lado, você tem de saber desde o principio que a meta rumo à qual ele o dirige é a perfeição absoluta; e não existe poder algum no universo, exceto você mesmo, que pos­sa impedi-lo de conduzir você a essa meta. E nisso que você entrou, e é importante que o saiba. Se não souber, a certa altura provavelmente começará a recalcitrar e a resistir. Segundo me parece, quando Cristo nos habili­ta a vencer um ou dois pecados que nos atrapalhavam de maneira óbvia, muitos de nós tendemos a sentir (em­bora não o formulemos em palavras) que já somos bons o suficiente. Ele fez tudo quanto queríamos que fizes­se e agora agradeceríamos muito se nos deixasse em paz. E como costumamos dizer: "Nunca quis ser santo. Tudo o que queria era ser uma pessoa decente e comum." E, quando dizemos isso, imaginamos que estamos sendo humildes.

Mas eis aí um engano fatídico. E claro que nunca quisemos e nunca pedimos que ele nos transformasse nesse tipo de criatura em que vai nos transformar. Mas o problema não é o que nós queríamos ser; é o que ele queria que fôssemos quando nos criou. Foi ele que nos fez. Ele é o inventor; nós somos a máquina. Ele é o pin­tor; nós, a pintura. Como podemos saber o que ele quer que sejamos? Veja só, ele já fez de nós algo muito diferente do que antes éramos. Há muito tempo, antes de nascermos, quando ainda estávamos no útero de nos­sa mãe, passamos por vários estágios. Éramos, no co­meço, semelhantes a vegetais, e depois nos tornamos semelhantes a peixes; foi só num estágio posterior que nos tornamos semelhantes a bebês humanos. E, se tivés­semos tido consciência desses estágios anteriores, arris­co-me a dizer que teríamos ficado muito contentes de permanecer semelhantes a vegetais ou a peixes — não te­ríamos gostado de ser transformados em bebês. Porém, ele sempre conheceu o plano que fez para nós e sempre esteve determinado a levá-lo a cabo. Algo parecido está acontecendo agora, num nível superior. Podemos até nos contentar com ser o que chamamos de "pessoas co­muns", mas ele está determinado a levar a cabo um pla­no muito diferente. Recusar-se a seguir esse plano não é humildade: é preguiça e covardia. Submeter-se a ele não é presunção nem megalomania, mas obediência.

Eis outra maneira de formular os dois lados dessa verdade. Por um lado, não devemos jamais imaginar que nossos esforços por si sós bastarão para nos conservar como pessoas "decentes" nem mesmo pelas próximas vinte e quatro horas. Se ele não nos sustentar, nenhum de nós estará a salvo de cometer algum pecado abomi­nável. Por outro lado, nenhum grau de santidade ou heroísmo, nem mesmo os graus alcançados pelos maio­res entre os santos, está além do que ele se determina a produzir em cada um de nós no final. A tarefa não fi­cará terminada nesta vida; mas ele pretende nos levar tão longe quanto possível antes de morrermos.

E por isso que não devemos nos surpreender se coi­sas ruins começarem a acontecer. Quando um homem se volta pata Cristo e parece estar bem (na medida em que alguns de seus maus hábitos estão corrigidos), ele pode pensar que a coisa mais natural seria que sua vida agora transcorresse sem problemas. Quando as tributa­ções chegam - doenças, problemas de dinheiro, novos tipos de tentação —, ele se decepciona. Aos olhos dele, essas coisas foram necessárias antes, para despertá-lo e fazê-lo arrepender-se; mas, e agora: por quê? Porque Deus o está obrigando a progredir ou subir a um novo nível: colocando-o em situações em que ele terá de ser muito mais corajoso, muito mais paciente, muito mais amoroso do que jamais sonhara ser. A nós, tudo isso parece desnecessário: mas é porque não temos ainda o menor vislumbre do ser tremendo em que ele quer nos transformar.

Parece-me que tenho de tomar emprestada mais uma parábola de George MacDonald. Imagine-se como uma casa, uma casa viva. Deus chega para reformar e reconstruir essa casa. No começo, talvez você consiga entendei o que ele está fazendo. Ele desentope os ralos, conserta as goteiras do telhado etc: você sabia que esses consertos eram necessários e por isso não se surpreen­de. Mas de repente ele começa a derrubar as paredes da casa; isso lhe causa uma dor terrível e aparentemente não tem sentido. O que ele pretende fazer? A explica­ção é que ele está construindo uma casa muito diferente da que você queria ser — está construindo uma nova ala aqui, acrescentando um novo pavimento ali, erguendo torres, abrindo pátios. Você pensava que seria transfor­mado num simpático chalezinho, mas ele está construin­do um palácio no qual pretende habitar em pessoa.

O mandamento Sede perfeitos não é uma palavra vazia e idealista, nem uma ordem para que o ser huma­no realize o impossível. Ele vai nos transformar em cria­turas capazes de obedecer a esse mandamento. Na Bí­blia, ele disse que somos "deuses", e será fiel às suas pa­lavras. Se o deixarmos agir — pois podemos impedi-lo, se quisermos —, ele fará do mais fraco e do maior pecador entre nós um deus ou uma deusa, uma criatura lumi­nosa, radiante e imortal, tomada por uma pulsação tal de energia, alegria, sabedoria e amor que agora somos incapazes de imaginar; um espelho claríssimo e sem mácula que reflete perfeitamente ao próprio Deus (em­bora, como é óbvio, numa escala menor) o seu poder, sua bondade e sua felicidade infinita. O processo será longo e, às vezes, muito doloroso, mas é nesse proces­so que entramos — nada menos do que isso. Ele estava falando sério.